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Artigo AAMAC

Arte, história, técnica & dinheiro
Por Noenio Spinola (*)

Qual será o valor real de uma obra de arte? Um marchand teria a resposta na ponta da língua – leilões descobrem com facilidade o preço de qualquer coisa. Artistas ou historiadores podem discordar, pois nem tudo deveria ser levado a leilão.

Os 50 anos do Museu de Arte Contemporânea – MAC USP, são um bom momento para refletir sobre o estado da arte no Brasil sob vários aspectos – desde a redescoberta do passado até a revolução no imaginário que viaja pelas telas de iPads e iPods. Uma visão menos romântica desse cenário não deve ignorar o preço dos rituais de passagem do passado para o futuro.

A reabertura do MAC USP no prédio do antigo Detran reflete a percepção do Estado de São Paulo para a importância dos museus da Universidade, e das pontes que eles podem ajudar a construir entre arte e educação, arte e trabalho, arte e técnica.

Estado e USP estão fazendo a sua parte. O valor material desse investimento depende do olhar de cada um. O curador do MAC USP, Tadeu Chiarelli, diz isso num livro sobre a contribuição de Félix Ferreira, descrito por ele como um publicista, um intelectual típico do Século XIX “voltado ao debate de assuntos de interesse público”:

“A popularização do ensino da arte, a divulgação de obras artísticas a partir do enlace entre arte e técnica, a questão do urbanismo e da arquitetura etc., eram assuntos que deveriam interessar a todos aqueles preocupados com as transformações necessárias à sociedade brasileira”.

Os “assuntos de interesse público” mudam com o correr do tempo. Ao longo dos seus 50 anos o MAC USP contou com o apoio de pessoas com visão além de sua época, dotados de capacidade para não limitar o “estado da arte e do interesse público” ao estado do dinheiro ou da pobreza franciscana.

Dois nomes são exemplares neste caso: Francisco Matarazzo, que em tempos de II Guerra trouxe um acervo fantástico para sua coleção particular, mais tarde doada ao Museu, e José Mindlin, primeiro presidente da Associação dos Amigos do MAC (AAMAC).

A biografia desses personagens dispensa comentários, mas vale destacar o que ela significa por um lado mais mundano. Tanto Matarazzo quanto Mindlin foram empresários vencedores, que compreenderam o significado do tripé quase sempre presente no edifício das artes: História, pois sem passado não existe futuro. Técnica, já que a intuição não pode ignorar o conhecimento, e Dinheiro (como seriam diferentes os tetos das igrejas romanas se os Papas do tempo de Michelangelo não quisessem pagar a conta dos pintores).

A AAMAC pós-José Mindlin e outros tem Roberta Matarazzo como Presidente e Fernando Henrique Cardoso como Presidente de Honra. A gestão clara, aberta, ousada e dinâmica que caracteriza a AAMAC quer mais: como nos tempos de Felix Ferreira, ela depende do apoio de todos “aqueles preocupados com as transformações necessárias à sociedade brasileira”. A AAMAC precisa de novos associados interessados em empurrar projetos e destravar alavancas ainda enferrujadas. É preciso continuar descobrindo o futuro.

Descobrir o novo pode não ser fácil, como mostra um quadro recente de Alberto Simon: nele você pode ver uma flor rara, a Rainha da Noite, mas não verá o que realmente importa se passar ao largo do que a moldura não significa. Quem leu o livro Clássico /Anticlássico de Giulio Carlo Argan encontra ali um bom exemplo do significado da relevância da intuição do artista, quando ele é capaz de ir além da moldura em períodos de transição. A data de referência é Florença em 1401.

É preciso lembrar sempre o que está do lado de fora da moldura da arte. São muitos os casos no Brasil que mostram as consequências de um ambiente morno, incompetente ou hostil, antítese da visão de um Mindlin ou um Matarazzo. Um dos mais famosos é a pintura de Tarsila, o Abaporu. A história trágica desse quadro pode ser relembrada com todos os detalhes por Raul Forbes. Depois de esbarrar em portas fechadas no Brasil a obra de Tarsila terminou leiloada em Nova Iorque. Hoje, é uma joia na coroa de um museu de Buenos Aires.

Quem pensar que o Abaporu é apenas um retrato do passado deveria acompanhar o próximo leilão da Heritage em Nova Iorque (marcado para meados de abril). Peças de inestimável valor histórico derivadas do Ciclo do Ouro no Brasil foram embora e irão a leilão.

O mesmo pode acontecer em outros espaços onde as artes e a educação avançam rumo ao futuro. Um olhar atento descobrirá com quanta rapidez, ou marasmo, desembarcará em São Paulo a revolução de novas mídias educacionais e artísticas, lideradas pela iTunes da Apple e povoada por reinvenções velozes pelo mundo afora.

(*) Noenio Spinola é jornalista e escritor. Foi Editorialista de O Estado de São Paulo e Correspondente em Washington, Moscou e Londres. Foi Diretor de Comunicação e Secretário do Conselho de Administração da BMFBOVESPA. Foi membro da OAB e do Ministério Público. Recebeu a medalha Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras. – Site: www.a2b2.com.br

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