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Exposição em destaque: Sala de Espera, por Carlito Carvalhosa

O  texto abaixo faz parte do material impresso da exposição Sala de Espera, de Carlito Carvalhosa, em cartaz agora no MAC USP Nova Sede, no Anexo Original do museu. Escrito pelo diretor do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, Tadeu Chiarelli, o texto permeia as relações do artista com o espaço de exposição: sua arquitetura, história e contexto. Uma interessante leitura que complementa a experiência de visitar a obra de Carlito Carvalhosa.

A exposição pode ser visitada até o dia 8 de setembro e a entrada é gratuita.

Reflexão e Prospecção: Sobre Sala de Espera de Carlito Carvalhosa
Por Tadeu Chiarelli, Diretor MAC USP 

Sala de Espera , instalação concebida por Carlito Carvalhosa para o Anexo Original da nova sede do MAC USP, apresenta uma série de abordagens possíveis, tamanha é a potência de sua proposição. Como, no entanto, ela é a primeira obra pensada para tal espaço, buscarei deter-me na maneira como o trabalho se constitui não propriamente, ou não apenas, com o espaço físico dado, mas com as reverberações da história deste mesmo espaço.

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Concebido no início da década de 1950 , pelo arquiteto Oscar Niemeyer , para servir de garagem ao edifício principal do complexo arquitetônico onde, de início, funcionou a Secretaria de Agricultura do Estado, o espaço – talvez despreocupado de sua função – criava um jogo feliz entre o plano térreo e aquele do mezanino e o conjunto de pilotis. Tal jogo inventava um ritmo que revia em chave moderna e original, a tradição do uso de colunatas em templos e em edifícios não consagrados.

Para animar esses elementos arquitetônicos “puros”, Niemeyer deixou que a luz do dia fluísse por janelões na parede mais alta do edifício, como uma espécie de liga, ou de fio condutor, entre a arquitetura (manifestação do homem, da cultura), e a luz (manifestação da natureza).

No entanto, como se sabe, os projetos no Brasil são de curto prazo e, assim, o edifício que havia sido concebido para servir de apoio à Secretaria, acabou por ser transformado num apêndice da imensa burocracia que assumiu aquele espaço quando, no primeiro prédio , se instalou, por anos, outra dimensão (talvez mais assustadora) da máquina do E stado: o Departamento de Trânsito. Quem se viu obrigado a percorrer o atual Anexo Original do MAC USP no período em que foi convertido em sítio da baixa burocracia, lembra-se do lugar como um espaço digno das metáforas e alegorias de Franz Kafka. Onde a fina relação entre arquitetura e luz, tão importante no projeto original? Afogada entre escrivaninhas, mesas, cadeiras, funcionários, despachantes, e cidadãos atônitos. Uma repartição pública, como a própria expressão pressupõe, corta, reparte, secciona o tempo e o espaço: Niemeyer desfigurado.

Confirmando a velha sina do provisório, também chegou a hora do DETRAN deixar o belo complexo arquitetônico do Ibirapuera cedendo o lugar, agora, para que a Universidade de São Paulo abrigasse o seu prestigioso e prestigiado Museu de Arte Contemporânea.

Em síntese: se no início o conjunto de edifícios foi destinado à agricultura – primeira base de sustentação da economia paulista –, na sequência privilegiou a circulação da riqueza. Fechando o ciclo, agora, finalmente, o continente encontra seu melhor conteúdo: o grande complexo arquitetônico passa a abrigar um acervo artístico fundamental para a compreensão da arte e da história das últimas décadas. É a hora da arte, da cultura, do lazer, a hora do edifício do antigo DETRAN estabelecer os laços com outros espaços arquitetônicos da vizinhança, também ligados à arte e à cultura (a Cinemateca Brasileira, a Fundação Bienal, o MAM o Museu Afro e outros empreendimentos). É de se esperar que, de fato, o grande complexo inaugurado em 1954, agora tenha encontrado a sua destinação última.

Como, no entanto, a reflexão sobre o devir do MAC USP em seu novo espaço não é o foco deste texto, retorno às considerações sobre o Anexo Original da nova sede do Museu e a proposta de intervenção de Carlito Carvalhosa.

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Tive a oportunidade de admirar o espaço do Anexo Original depois de ter sido o edifício complementar do DETRAN e antes de passar pela reforma que o transformou no que é hoje. A experiência poderia ser resumida em apenas uma frase: era o espaço mais perfeito para exposições de arte contemporânea no Brasil. Admirar os dois “pavimentos” (o térreo e o mezanino) e a coleção de pilotis – tudo inundado pela luz brilhante de uma manhã de primavera em São Paulo –, me fez confirmar o que foi um dia o talento de Oscar Niemeyer.

Um espaço arquitetônico ao mesmo tempo forte e sutil, banhado pela luz deslumbrante a ser destinado à arte contemporânea. (E foi nesse momento que me ocorreu convidar Carlito Carvalhosa a ocup á -lo. À época – maio de 2010 –, a produção do artista como que pedia um espaço monumental para se expandir como merecido). Porém, aquela feliz experiência com a obra do arquiteto foi logo interrompida pela informação de que o local mudaria bastante: um sistema de ar condicionado e paredes dedrywall já haviam sido adquiridos para aquele espaço e seriam instalados de imediato.

Frente ao irreversível, adivinhei no que se transformaria aquele local, em que arquitetura e luz então se equilibravam com maestria: um imenso “cubo branco” , um portentoso templo de arte, apartado da natureza e da história.

Dito e feito: como todo espaço tradicional de arte moderna, por meio da adaptação pensada para uma arte confinada às suas especificidades preditas, a nova configuração do Anexo Original da nova sede do MAC USP acabou por transformar o edifício tão singular em mais um espaço para a arte tradicional. Ainda um belo espaço – não restam dúvidas – mas fechado em si mesmo, alheio às conexões que seu inventor havia concebido.

Felizmente, porém, Carvalhosa manteve o aceite do convite para a primeira intervenção artística no espaço, mesmo depois da reforma concluída. Felizmente porque o artista, com Sala de Espera , resgata o edifício do destino que, na última reforma, lhe fora traçado: transformá-lo no maior cubo branco brasileiro.

A estratégia de Carlito Carvalhosa para ativar o espaço que lhe foi oferecido, consistiu em tomar como ponto de partida, justamente, o caráter atemporal, “entre parêntesis”, que o Anexo Original assumiu após a última reforma. Para tanto, atacou o principal elemento estrutural da edificação: o conjunto harmonioso de pilotis. A essa quase etérea colunata, que parece emanar como sutil relevo do espaço todo branco, Carvalhosa opôs quase uma centena de antigos postes de madeira, que um dia serviram à rede elétrica.

Vista a intervenção do alto (a partir do mezanino), ou mesmo ao experimentá-la já em seu interior, o visitante perceberá que o artista confere àquele espaço – antes quase sagrado –, uma dimensão irreversível de atualidade. É justamente no jogo entre a série de pilotis e os postes nunca na vertical (todos se posicionam entre o horizontal e o oblíquo), aliado à densidade matérica, à espessura histórica dos postes, que a intervenção de Carvalhosa evidencia sua razão de ser.

O espaço que havia se tornado recluso, fechado em si mesmo, quase uma sala de espera (a sala de espera, o lugar onde sempre estamos entre uma experiência efetiva e outra), revela-se, então, um lugar de ação, de percepção participativa e conscientizadora.

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Sala de Espera , portanto, traz de volta a este espaço um novo pulsar e, dessa maneira, recupera o melhor (de) Niemeyer.

Inaugurar este novo espaço de arte em São Paulo com uma intervenção que demonstra o quanto a arte atual, quando pode e sabe, consegue potencializar o passado, deve ser entendida como a manutenção do compromisso do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, com um lugar em que reflexão e prospecção devem caminhar juntas.

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