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Anita Malfatti
A Boba, 1915/16
Em exposição no MAC USP Nova Sede

O Anjo Fardado

Por Anita Malfatti*

“O bonde estava cheio de amargar! Três horas, crianças voltando da escola carregadinhas de livros e pastas, operários empurrando com força, mulheres com pequenos nos braços, embrulhos de todo o jeito: outros se espichando por cima da gente para dar o sinal de parada, e por cúmulo um calor de rachar. Consegui me sentar num lugar no começo do “camarão”. Desviava os empurrões escondendo a cabeça como podia — De repente, pronto, a coisa mudou! — Uma paz gostosa envolveu a mexida, e a beleza entrou fardada e sentou na minha frente do outro lado do bonde. Ah! se eu pudesse… se tivesse tempo… Comecei a querer vê-lo pela frente… não era possível, retorci-me toda… vi-o de três quartos, só por segundos… e acabei contentando-me a vê-lo pelas costas. Assim mesmo tudo era perfeito… desenhava aflita… pensava… não dá tempo para pintar… e continuava escolhendo as cores. Os ocres esverdeados, certos azúis, mais verdes, um pouco de carmim para esquentar o tom, mais azul para afastar os planos… Ah! não dava tempo, mas sim preciso continuar… e continuava meu trabalho.

Anita Malfatti
A Boba, 1915/16
Em exposição no MAC USP Nova Sede

“As costas do modelo começaram a se movimentar formando um sulco diagonal que ia do ombro perto da gola até o cinturão do oficial. Me lembrei depressa que o retratado nunca deve estar cônscio do interesse que desperta, tentava não fitá-lo, mas o tempo acabava, o bonde chegava à praça e eu continuava na faina. Havia galões de ouro, verdes e azuis no boné com a borda toda listadinha, nos ombros torcidinhos de galões dourados e outras coisinhas, nos punhos, credo, eram tantos que não dava mesmo tempo. Como é que eu faço, meu Deus, não consigo. O cabelo pretíssimo, glostorado, aí, preciso misturar o carmim com o preto, senão não consigo o ultrapreto; agora sim, era o rosto meio virado para mim, todo inquieto, o que eu não queria: é o nosso moreno paulista, as mãos estou vendo agora mais morenas, mais um pouco de siena queimada, o rosto mais um nadinha do verde-terra no ocre. — O bonde parou! Saio ou não saio… Praça Marechal Deodoro! Deram o sinal, o bonde estrepitou e parou, fico ou não fico… nisto meu modelo se levanta, olha para mim esquisito e vai saindo, olhando sempre para trás e eu atrás da visão. Aí sim! pharmacy canada Aproveitei pra pintar os galões, os vermelhões, os ultramares e cromos com verdes de

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esmeralda!! Eu estava na esquina da praça. A maravilha num instante atravessara a praça e eu atrás encantada. — Então, no meio da confusão medonha, vi o quadro perfeito, de pé, parado, no meio do jardim ao lado da estátua. Percebi que me achava no meio de rodas de caminhões, de carros, bicicletas e de gente gritando, um horror, quando vi a visão voltar e dirigir-se em minha direção correndo, no canadian pharmacy meio da confusão, do tremendo movimento! Me agarra pela mão e começa a me puxar e me convencia dizendo: por aqui, rodeie o caminhão, não se afobe, passe atrás do auto, abaixe-se mais sobre o pára-lama e aos poucos o espaço se abria viagra e não sei como foi que me achei sã e salva na calçada do largo. De novo perto das florzinhas do canteiro com ambas as mãos segurando no meu rosto, abaixou-se um pouco e disse: “É demais de distraída. Notei isto quando entrei no bonde… quase morreu, sabe?” Eu não tinha percebido nada! Não vira perigo algum, não podia dizer nada. O anjo fardado de novo desaparecera assim de repente no meio do canteiro das florzinhas. O que sim desconfio canadian pharmacy online até hoje, é que o anjo fardado era paulista!”

*Texto escrito por Anita Malfatti. O original foi doado pelo escritor Mucio Porfirio Ferreira ao Museu da Imagem e do Som, e reproduzido pelo jornal Folha de São Paulo cialis online em 15 de março de 1982 na ocasião do 60° aniversário da Semana de Arte Moderna. Confira a matéria na integra: http://almanaque.folha.uol.com.br/semana13.htm.

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